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São Vicente do Seridó inicia produção de uma inovadora bebida de umbu

Projeto de espumante semelhante ao vinho, feita com fruta nativa da caatinga, abrirá caminho para turismo rural, gastronomia e valorização do umbu
Por Valdívia Costa
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No coração do seridó da Paraíba, uma propriedade rural começa a transformar tradição, criatividade e inovação em uma experiência turística e gastronômica. No Assentamento Olho D’água, no Sítio Queixada, em São Vicente do Seridó, o agricultor familiar Claudino de Oliveira Castro deu início à produção de um fermentado de umbu, semelhante ao vinho, artesanal e feito a partir dessa fruta símbolo do semiárido. É um produto inédito na região, que já desperta interesse do mercado e promete atrair visitantes curiosos por sabores autênticos.

Umbuzeiro de Claudino/ Foto: Ascom Sebrae/PB

A primeira produção desse “projeto de espumante”, como os especialistas descrevem, contará com 150 garrafas e deve ser comercializada inicialmente a unidade por R$ 120. A expectativa é apresentar o produto ao público durante o Festival do Umbu, que acontece entre os dias 25 e 29 de março, na cidade de Dona Inês, no curimataú da Paraíba, além de iniciar a venda no comércio local do seridó e em restaurantes da região.

A iniciativa nasceu de um processo de experimentação e aprendizado. Claudino começou a se interessar pelo potencial econômico do umbu após participar de cursos voltados à agricultura familiar promovidos por instituições como o Senar e o Sebrae. Durante os estudos, descobriu que o fruto possui características químicas semelhantes às da uva, o que poderia permitir a produção de uma bebida fermentada.

A primeira experiência foi modesta, com cerca de 50 litros produzidos apenas para consumo próprio. Com o tempo, a ideia ganhou força e passou a receber apoio técnico do Sebraetec, programa que conecta empreendedores a consultorias especializadas para inovação e melhoria de processos produtivos.

Segundo o gerente da Agência Regional do Sebrae/PB em Araruna, Marcílio de Sousa, a iniciativa representa um exemplo de como a inovação pode agregar valor à produção do semiárido.

“O trabalho desenvolvido por Claudino mostra como a agricultura familiar pode transformar um produto tradicional em uma experiência diferenciada, agregando valor e criando novas oportunidades de renda. O Sebrae atua justamente para apoiar esses empreendedores na profissionalização, desde o aperfeiçoamento técnico até o acesso ao mercado”, destacou.

Com o acompanhamento técnico, a produção do fermentado de umbu passou por melhorias importantes, como análises de fermentação, controle de PH, teor de açúcar e processos de gaseificação para transformar a bebida em um espumante frisante. Também estão previstos estudos em parceria com universidades para desenvolvimento de rótulos, análises químicas, registro no Ministério da Agricultura (MAPA) e adequação às normas de comercialização.

Além do potencial gastronômico, o espumante de umbu surge como uma alternativa de alto valor agregado para a fruta. Enquanto o umbu in natura é comercializado por cerca de R$ 22 a caixa, com custo médio da matéria-prima em torno de R$ 1 por quilo. Essa diferença demonstra o potencial econômico da transformação agroindustrial da fruta.

Fábrica do fermentado/ Foto: Ascom Sebrae/PB

O interesse do mercado também já começa a surgir. Pelo menos 160 restaurantes ligados ao tradicional Festival da Carne de Sol do município demonstraram interesse em comercializar a bebida artesanal, o que pode ampliar a visibilidade do produto e fortalecer sua presença na gastronomia regional.

Daniele e seus produtos lácteos caprinos/ Foto: Ascom Sebrae/PB

Turismo rural e sabores do semiárido

A produção do espumante é apenas uma das iniciativas desenvolvidas no Sítio Queixada. A propriedade também aposta na produção artesanal de derivados do leite de cabra, elaborados por Daniele de Oliveira, esposa de Claudino, que produz diversos tipos de queijo, iogurte e doces utilizando o leite caprino.

Entre os destaques estão queijos temperados, frescos, maturados e até versões com combinações criativas, como queijo com goiabada ou recheado com doce de umbu. Os produtos são vendidos diretamente na propriedade e também sob encomenda, inclusive para clientes de outras cidades.

A proposta do casal agora é transformar o sítio em um ponto de visitação turística, onde as pessoas possam vivenciar a rotina do campo, conhecer o processo de produção e degustar os produtos artesanais em um ambiente acolhedor típico do interior.

Além da produção de derivados lácteos e do projeto de espumante de umbu, a propriedade também investe em outras atividades, como apicultura, criação de galinhas e produção agrícola diversificada, fortalecendo o conceito de agroindústria familiar integrada.

Produção expressiva no seridó

O município de São Vicente do Seridó destaca-se como um dos principais polos

Produtos lácteos caprinos/ Foto: Ascom Sebrae/PB

produtores de umbu na Paraíba. No assentamento onde Claudino vive há cerca de 45 anos, existem aproximadamente 800 pés da fruta nativa e ele tenta produzir esse espumante de umbu há 12 anos. Durante o período de safra, a colheita pode alcançar cerca de 80 toneladas por dia, evidenciando o enorme potencial produtivo da região.

A transformação dessa riqueza natural em produtos de maior valor agregado, como o espumante de umbu, representa uma nova fronteira para a economia local. Ao unir agricultura familiar, inovação e turismo rural, iniciativas como a do Sítio Queixada mostram que o semiárido também pode brindar o Brasil com sabores únicos e histórias inspiradoras de empreendedorismo no campo.