Bolo com cobertura e confeito; pães, pastéis, pizzas. Até coxinha, quem diria. Pode parecer uma padaria comum aos paladares. O cheiro dos pães frescos saindo do forno ainda é o mesmo. Entretanto, apesar das aparências, há dois elementos faltando, propositalmente, em todos os produtos. Suas ausências podem ser decisivas para a saúde de muitas pessoas.
Elida de Amorim Mendes, de 43 anos, e Neto Porto, de 23, são sócio-proprietários da empresa pessoense Delaine Sem Trigo, especializada em alimentos inclusivos, como são conhecidos os alimentos sem glúten e lactose. Além do laço empresarial, ambos mantêm uma relação ainda mais próxima: são mãe e filho, diagnosticados com graves alergias às proteínas do trigo e do leite, respectivamente.
A produção de alimentos sem glúten e sem lactose faz da Delaine Sem Trigo uma empresa com um ingrediente especial: a empatia. Essa nobreza de sentimento, somada à arte de cozinhar, proporciona aos clientes uma satisfação pessoal que surgiu de uma necessidade.

“Quase tudo o que eu faço aqui, hoje, era porque eu amava comer”, contou Elida.
A padeira ainda lembra da primeira vez que fez um pão sem glúten, após o diagnóstico que veio com restrições, numa época em que nem imaginava que um dia abriria um grande negócio no segmento. “Muitas vezes eu começava a comer chorando, porque a alegria de comer algo que não vai te fazer mal não tem preço, não.”
A resposta dos clientes celíacos, segundo a empresária, tornou-se ainda mais fermento para o desejo de expansão da empresa, com a certeza de que mais pessoas precisam resgatar o prazer de comer.
“Há poucos dias, recebi o feedback de uma menina que fazia cinco anos que não comia um pão francês. Ela me mandou uma mensagem dizendo que estava comendo o pão e chorando, mas chorando de emoção. Pensou que nunca mais na vida teria esse prazer de comer um pão com ovo, uma coisa tão simples, mas que, para ela, era algo importantíssimo”, revelou.
Diagnóstico e luto

A empresária lembra que, num momento de sua juventude, antes de saber do diagnóstico, desenvolveu problemas de saúde constantes, os quais a obrigavam a procurar por intervenção médica. Foi justamente num desses exames que a pessoense descobriu a doença que, prontamente, veio acompanhada de restrições.
“A médica chegou para mim e disse: ‘Olha, você vai ter que excluir totalmente o glúten. No teu caso, você não pode nem se contaminar’”, lembrou.
Elida explica que sua condição é tão grave que uma simples contaminação cruzada pode desencadear uma reação alérgica, mesmo que o alimento não contenha glúten, basta ter sido preparado com utensílios anteriormente usados em refeições com a proteína. “A sensação, de início, é de luto”, lamentou.
Vida social afetada
O diagnóstico celíaco impôs à vida da empresária uma série de restrições. “Na hora, você fica sem chão, desesperado. Você pensa: ‘Pronto, agora vou comer o quê?’”, rememorou. Elida destaca seu prazer pela alimentação, do pãozinho francês no café da manhã às pizzas e pastéis dos passeios em família. E foi justamente com essas restrições que outro ponto foi afetado em sua rotina: a vida social.
Ela lembra do dia em que chorou durante uma viagem em família, ao ver o banquete posto à mesa sem poder chegar perto. Segundo a empresária, dificilmente há restaurantes que incluam comida sem glúten, assim como o preparo especial necessário para evitar a contaminação cruzada nos cardápios. Restou a Elida se conformar com as frutas.
Buscando alternativas

Restrições impostas pelo diagnóstico instigaram Elida a encontrar alternativas por conta própria. Começou por sua casa, onde construiu uma cozinha especial para produzir alimentos sem contato com o glúten.
A busca pelo prazer do paladar levou a cozinheira a um período de descobertas, encontrando na internet receitas que pudessem reviver as lembranças da jovem fã de pão francês, pastel e pizza. As primeiras tentativas, segundo ela, foram frustrantes. Mas, quando acertou, mal podia imaginar que, naquele momento, estava fermentando um destino brilhante.
“O primeiro pão que deu certo, depois de muitas tentativas… Ah, foi uma alegria imensa!”, contou.
Fermentando negócios
Naquele período de acertos no preparo da comida inclusiva, Elida conta que uma amiga foi diagnosticada com intolerância à lactose, assim como seu filho. Sensível à condição, resolveu preparar um pãozinho especial, para devolver à amiga o direito ao prazer de comer. Sua empatia, misturada ao talento que desenvolveu na cozinha alternativa, tornou-se o ingrediente ideal para o sucesso empreendedor.
“Ela amou o pão. Aí, já contou para outra amiga que também tinha alergia a glúten, a outra tinha à lactose; dessa amiga, passou para outra… Uma dizendo pra outra, e elas me pediam. E eu fazia, porque sabia como era difícil não poder comer, e queria que elas também voltassem a comer o que eu estava comendo. Assim, de boca em boca, começou a tomar uma proporção. Eu fui fazendo, e se tornou um negócio por causa da demanda”, afirmou.
Foi nesse momento que mãe e filho tornaram-se parceiros de negócios, assumindo, juntos, a missão da alimentação alternativa.
Primeiros desafios
Elida descreve um começo empreendedor improvisado, focado apenas na entrega do produto. Foi pega de surpresa, sem noções mais embasadas de gestão, justamente quando novos clientes começavam a surgir. Neto, seu filho, comenta que, nesse período, não havia uma divisão clara de funções.
“No início da Delaine Sem Trigo, a gente não tinha como fazer uma distinção 100% entre produção, quadro administrativo, atendimento… porque era só nós dois e, depois, mais um funcionário. Conforme a demanda foi crescendo, fui me estruturando mais na parte administrativa”, contou.
Sebrae: um ingrediente extra
Para o fortalecimento da pequena empresa, Neto buscou apoio. Confiava que o empreendimento da mãe tinha tudo para prosperar com mais segurança. Por indicação de uma colega, conheceu as consultorias do Sebrae e, principalmente, o Programa ALI – Agentes Locais de Inovação. Segundo o empresário, a atuação da entidade foi o fermento ideal.
“O Sebrae foi um divisor de águas no processo de estruturação da Delaine. Por meio de consultorias, cursos e programas específicos para pequenos negócios, a empresa conseguiu aprimorar sua gestão, entender seu público com mais profundidade, precificar corretamente e reduzir custos. Além disso, o Sebrae ajudou a Delaine a construir um plano de negócios sólido, com metas de crescimento realistas e sustentáveis, por meio do programa ALI”, afirmou.
De acordo com Elida, as ações desenvolvidas pelo Sebrae contribuíram para uma percepção mais realista da importância do segmento de alimentos alternativos, e do potencial de crescimento que a Delaine Sem Trigo tinha.
“Isso fez a gente entender que o mercado era muito maior do que imaginávamos”, pontuou, e complementou: “A gente vê que isso realmente faz diferença, não só na nossa empresa, mas na vida de vários microempresários”, destacou, referindo-se também às amizades que construiu com outras mulheres empreendedoras acolhidas pelo Sebrae.
A empresária também ressalta a capacidade da entidade de abrir horizontes para os microempreendedores, auxiliando na alavancagem dos negócios e gerando desenvolvimento para a família e a comunidade ao redor.
“Eu não imaginava que teria tantas funcionárias, famílias que são abençoadas, que hoje têm seu sustento por meio de algo que começou conosco. Mas o Sebrae ajudou, aprimorou e está aí: a empresa crescendo, e a gente pretende contratar mais gente”, garantiu.

Transformação
Atualmente com 11 funcionários, Neto afirma que, após as ações do Sebrae, a Delaine Sem Trigo passou a faturar 400% mais. O sócio-empresário listou alguns parâmetros que marcaram os pontos essenciais de mudança, com a orientação da entidade.
“Antes do Sebrae, a Delaine operava com base na intuição e no esforço, mas sem uma gestão estruturada. Havia inseguranças quanto à precificação, dificuldades para definir estratégias de venda, ausência de padronização nos processos e desafios para comunicar claramente o valor do produto ao público. Depois do Sebrae, a empresa passou a atuar com mais segurança, planejamento e estratégia. O posicionamento foi fortalecido, a identidade da marca ganhou forma e consistência, e os produtos foram padronizados com processos mais eficientes e escaláveis. O Sebrae ajudou a transformar a Delaine Sem Trigo em um negócio mais sólido, profissional e preparado para crescer”, explicou.
Realização profissional
Ao lamentar uma sociedade em que, segundo Neto, ainda há muito preconceito em relação aos alimentos sem glúten e sem lactose, o empresário acredita que esse estigma vem, justamente, de empresas que se propuseram a oferecer tais produtos no mercado, mas sem o devido cuidado com o sabor. E é justamente nisso que, segundo ele, a Delaine Sem Trigo se diferencia.
“O projeto da Delaine Sem Trigo é levar essa alimentação saudável, saborosa e inclusiva para todo o Brasil, para que as pessoas entendam, realmente, a importância de ter uma alimentação boa e para que várias pessoas possam sentar à mesa sem nenhuma distinção alimentar”, afirmou.
Em processo de expansão da empresa, Elida conta que o grande ensinamento do Sebrae é justamente essa mudança de chave: fazer o empreendedor acreditar que pode crescer, orientando-o nesse caminho. “Tudo na vida é possível de se transformar. Quando você busca conhecimento e quer ajuda, consegue vencer todas as dificuldades.”
Sebrae e os Agentes Locais de Inovação
Claudia Pereira é analista do Sebrae e atua na Unidade de Gestão, Inovação e Competitividade Empresarial. Ela acompanha, com otimismo, o retorno positivo dos negócios da Paraíba às ações de desenvolvimento econômico promovidas pela entidade. “É uma grata satisfação ver empresas em pleno crescimento”, afirmou.
Claudia apresenta o Programa ALI – Agentes Locais de Inovação como uma ferramenta de desenvolvimento empresarial. Nele, um agente treinado pelo Sebrae acompanha o negócio durante seis meses, aplicando diagnósticos e identificando problemas que impactam os resultados. Após a análise, é desenvolvido um plano de ação.
“Esse problema é sanado a partir de um plano de ação, no qual o agente local de inovação e o empresário trabalham juntos”, explicou.
Segundo a analista, a história da Delaine Sem Trigo, uma das empresas contempladas pelo programa, soma-se a diversos casos de sucesso acompanhados pelo Sebrae, empresas que buscaram a entidade em busca de amparo, independentemente do porte ou tempo de atuação no mercado.
“E, a partir de alguns programas e intervenções, seja por meio de consultorias ou de capacitações, essas empresas têm crescido e nos dado retorno de que, após nossa intervenção, houve modificações em sua gestão, para melhor.”
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